A Americanas entrou nesta quarta-feira (25) com pedido para saída da recuperação judicial dois anos após a homologação do plano na Justiça do Rio de Janeiro, em fevereiro de 2024. O pedido à 4ª Vara Empresarial da Comarca do Rio ocorre dentro do prazo mínimo legal dado para uma empresa nessa condição solicitar o encerramento junto ao juiz do caso.
Se o pedido for aceito, se encerra uma etapa relevante na maior crise na história da companhia. O caso envolveu um esquema de fraude da ex-diretoria, que levou à dívidas concursais da ordem de R$ 42,5 bilhões, terceiro maior valor na história das recuperações judiciais do país.
Ministério Público e as administradoras judiciais devem ser chamados pelo Juízo para se manifestar sobre a solicitação da rede.
O plano de pagamento aos credores das dívidas remanescentes, negociadas três anos atrás, continua de pé, mas a expectativa é que, com essa página virada, a empresa consiga melhores condições de linhas de créditos junto a bancos e fornecedores – que restringem acesso por determinação jurídica das matrizes – o que pode ajudar no ciclo financeiro da empresa.
A companhia ainda informou ontem a venda da Uni.co, que reúne as redes Imaginarium e Puket, para a Fan Store Entretenimento S.A, dona da BandUP Store, por R$ 152,9 milhões. O acordo fazia parte do plano de recuperação.
Nos últimos tempos, a geração de caixa da rede sustentou os pagamentos a credores do plano, sem novos aportes de acionistas – além dos R$ 12 bilhões iniciais colocados por Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles.
A varejista começa a pagar em outubro juros de uma emissão de R$ 1,8 bilhão de debêntures que ajudou no refinanciamento da dívida principal.
“Tivemos capacidade de transformar o negócio, fazendo escolhas difíceis ao longo desse tempo, e suportando o acertado no plano, e por isso decidimos antecipar o período [de saída]”, disse Fernando Soares, CEO da Americanas.
Para se ter uma ideia de como esse processo se deu de dois anos para cá, valores foram quitados enquanto a empresa tentava reorganizar a própria operação.
A principal dúvida do mercado no auge do escândalo envolvendo a cadeia era como a empresa iria colocar o plano de pé, considerando que o acordado com os acionistas de referência era arcar com o acertado com credores com o caixa da rede. E isso continua mantido daqui para frente, quando novos vencimentos devem acontecer, e num cenário de mercado de consumo mais complexo.
Olhando para frente, a Americanas ainda precisa voltar a dar lucro no ano e gerar mais caixa, num cenário de pressão maior no endividamento das famílias, o que reduz vendas no varejo.
Em 2025, a receita operacional caiu 1,2%, para R$ 12,3 bilhões. O prejuízo líquido foi de R$ 271 milhões, frente a um lucro de R$ 8,3 bilhões em 2024, turbinado pelo reconhecimento, como receita financeira, dos cortes na dívida bilionária da varejista com bancos.
Ao mesmo tempo, o ebitda ajustado, que gera caixa, cresceu 12% em 2025, por conta de efeito de recuo de 18% nas despesas operacionais. O ebitda mede lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação. Ainda havia R$ 2,5 bilhões em caixa ao fim do ano passado, considerando recebíveis de cartão de crédito.
Sebastien Durchon, diretor financeiro da Americanas, conta que, em 2025, a empresa pagou R$ 150 milhões a credores que não foram incluídos na categoria de colaboradores. Ainda arcou com R$ 125 milhões numa renegociação com a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN), dentro de uma oportunidade que surgiu, e porque havia caixa para isso.
“Tivemos uma carência de juros da debênture de R$ 1,8 bilhão, vamos começar a pagar neste ano, e só em 2028 temos tranche dessas debêntures mais juros a pagar que somam R$ 1,3 bilhão”, diz.
Segundo Soares, foi possível avançar esses dois anos em parte graças à decisão de manter a maioria das lojas em funcionamento, sem fechamento relevante de unidades. E adotando medidas como encolhimento do braço digital, que consumia capital há anos.
Um mês após ter pedido recuperação judicial, a empresa tinha 1.855 lojas, e em fevereiro de 2026, passou para 1.449.
Em número de clientes, eram 46 milhões um mês após a cadeia pedir recuperação. Relatório do administrador judicial de março mostra 39,7 milhões em fevereiro.
“Abrimos mão de um negócio de custo de aquisição alto [on-line], mantivemos a maior parte das lojas, repensamos a forma de trabalhar os canais, e pedimos apoio dos fornecedores. Isso ainda não acabou, mas é um exemplo para o mercado que dá para sair de uma recuperação”, diz o CEO.
Para isso acontecer, porém, além dos R$ 12 bilhões do aporte dos sócios, os bancos credores ainda converteram R$ 12 bilhões de dívida em equity, majoritariamente bancos, que apoiaram o plano.
Source: Valor Econômico
